FUSQUEIRO NÃO PERDE A HORA!...

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Direção na direita...

Modelo alemão de 1965

Unidade foi produzida na Alemanhapara as colônias inglesas na África.
Feito para rodar em Moçambique, volante é posicionado do lado direito.










Foi em 22 de junho de 1934 que o engenheiro Ferdinand Porsche e a Associação Nacional da Indústria Automobilística Alemã assinaram o contrato para o desenvolvimento do projeto de fabricação do "Volkswagen", apelidado no Brasil de Fusca, que viria a ser o carro mais vendido da história. Em homenagem à data, o Fusca Clube-BH mostra a trajetória de um modelo de 1965, que saiu das linhas de montagem na Alemanha com o passaporte carimbado para as colônias inglesas na África e desembarcou no Brasil por acaso.


O proprietário do fusquinha na época, um cônsul americano, mudou-se às pressas do continente africano para o país e trouxe na bagagem o modelo azul pavão com motor de 1.300 cilindradas. Aqui, resolveu se desfazer do carro que foi à leilão no mesmo ano, em 1967, e adquirido por 7.555 cruzeiros por um adolescente de 17 anos. Hoje, 43 anos depois, o agora médico urologista João Reinaldo de Oliveira Abrahão se orgulha do carro que chegou a ser vendido e, oito anos depois, voltou para suas mãos.


Fusca alemão de 1965Fusca azul pavão fabricado na Alemanha chegou em 1967 ao Brasil e foi comprado por 7.555 cruzeiros. (Foto: Milene Rios/G1)

“Estava há cerca de seis meses com o carro e eu e meu pai fomos procurados pela família de um rapaz que tinha uma deficiência no braço direito e por isso era autorizado pelo Detran a dirigir apenas carros automáticos, que eram restritos na época, ou com o volante do lado direito para trocar as marchas”, conta Abrahão. “Meu pai então me pediu que vendesse o carro, porque ele precisava mais do que eu, e concordei, apesar do apego com o fusquinha.”


Fusca alemão de 1965Componentes são originais. (Foto: Milene Rios/G1)

Antes de entregar as chaves, no entanto, Abrahão fez uma exigência. “Pedi que ele não vendesse o carro para mais ninguém. Que quando não precisasse mais, que me procurasse.” E a palavra, que na época valia mais do que qualquer contrato, foi cumprida. “Oito anos depois ele me procurou e me vendeu o Fusca pelo preço de um modelo nacional de 1965, que na época era muito pouco”.


Abrahão, então, que já era médico e casado, resolveu cuidar do seu primeiro ‘filho’. “Como peguei o carro adolescente, na época troquei as rodas e o volante por acessórios mais esportivos e depois voltei a usar as peças originais”, conta. “Tive que fazer também a pintura e o motor que não resistiram ao tempo e desgaste”. Mas só. O modelo é muito bem conservado e manteve todas as características que fazem dele uma relíquia.


Fusca alemão de 1965Modelo chegou a ser vendido por uma boa causa, mas depois foi recuperado. (Foto: Milene Rios/G1)

A principal característica é, sem dúvida, o volante do lado direito, uma peculiaridade dos carros que rodam na África do Sul até hoje. Antes de entrar no modelo, é inevitável que o motorista se dirija à porta do lado esquerdo. Depois de se encontrar, outra curiosidade: a caixa de transmissão de quatro velocidade e a partida são do lado esquerdo, ou seja, a primeira marcha é engatada para a esquerda e a chave gira para o lado direito, como nos modelos com direção do lado "certo".


Fusca alemão de 1965Retrovisor só no lado direito. (Foto: Milene Rios/G1)

Depois de algumas trapalhadas, conseguimos, enfim, sair com o Fusca. Em meio ao trânsito, uma importante observação. Como o volante é do lado oposto, o retrovisor só existe para o lado direito. A saída óbvia seria usar o retrovisor interno, mas a peça original que dá suporte ao espelho é levemente inclinada para a direita e não permite ajuste. Para garantir a originalidade do 'baratinha', a solução encontrada por Abrahão foi colocar um espelho mais largo sobre o retrovisor para enxergar, inclusive, os carros à esquerda.


Outra curiosidade exclusiva do modelo alemão são as duas alavancas com as cores branca e vermelha, posicionadas uma de cada lado do freio de mão, para o acionamento do ar frio e quente, respectivamente. Diferentemente da versão nacional, há também uma tampa nas saídas de ar localizadas próximas ao assoalho que podem ser abertas e fechadas com os pés.


Fusca alemão de 1965Carro tem 45 anos e ainda conserva a originalidade nos detalhes. (Foto: Milene Rios/G1)

O conjunto mecânico é o mesmo dos modelos fabricados por aqui em 1967, com um motor 1.300 cc que já rodou quase 140 mil quilômetros e, apesar do tempo, está em ótimo estado. De acordo com Abrahão, ele ultrapassa os 100 km/h com tranquilidade. "Na minha época de molecagem, cheguei a andar no VDO [nome da fabricante do velocímetro que fica inscrito depois dos 140 km/h]", lembra o médico rindo.


Fusca alemão de 1965Rodas são as de fábrica. (Foto: Milene Rios/G1)

Mas qual é o valor de tantas histórias? O Fusca de 1965 chegou a ser anunciado uma vez por US$ 20 mil, segundo o médico "em um tempo de vacas magras', mas na primeira oferta o dono se arrependeu e voltou atrás da decisão. "NInguém sabe o quanto vale um carro desse, mas eu sei o tanto que ele representa para mim", diz. "Ele vale, na verdade, uma boa causa. Eu não venderia ele por preço nenhum".


Para quem se contentar em apenas conhecer o modelo de perto, ele será uma das principais atrações de uma exposição em homenagem ao dia mundial, que acontece nesta terça-feira, no Sambódromo do Anhembi, a partir das 18h. A entrada é gratuita e será realizada na Avenida Olavo Fontoura, portão 23.


Fusca também tem dia nacional
No Brasil, 20 de janeiro é o Dia Nacional do Fusca. A data foi instituída pela Volkswagen na década de 80 e faz parte do calendário oficial de eventos da Prefeitura de São Paulo desde 1996, ano em que o modelo deixou de ser fabricado pela segunda vez.

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